Política / Eleições 2026

Com ida facultativa às urnas, eleitores com mais de 70 anos representam 10% do total; declarações de Flávio Bolsonaro em debates podem ter influenciado no resultado, opina cientista político

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Os 70+ que marcaram presença nas urnas e foram importantes na virada de Lula e na queda da taxa de abstenção — Foto: Arquivo pessoal, Reprodução/TikTok/jcmartinss e Reprodução/Instagram/mestreroque100

O presidente Lula (PT) conseguiu uma inédita virada neste 2º turno. Depois de ficar atrás no 1º turno, o petista passou Flávio Bolsonaro (PL) e conseguiu se reeleger com mais de 4 milhões de votos de vantagem anteontem. E um dos fatores apontados para a vitória foi a queda da taxa de abstenção, a menor desde 2006. Os méritos para o feito podem ser atribuídos à turma da melhor idade, que exerceu o direito ao voto, mesmo ele sendo facultativo a partir dos 70 anos.

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Lucia Maria de Oliveira, de 77 anos desistiu de votar no 1º turno, por conta do elevador quebrado na escola em que vota, no campus da Faetec em Quintino, na Zona Norte do Rio.

— Estava cansada, sem coragem. Mas depois da vitória do Flávio, fui votar no 2º turno para fazer a diferença. Mesmo se o elevador não estivesse funcionando, subiria degrau por degrau — conta ela, que vê Lula como quem pode “fazer o melhor”.

Mas os joelhos calejados da carioca não precisaram ser sacrificados porque o reparo do equipamento foi feito a tempo do 2º turno. Segundo a Faetec, foi necessária a substituição de uma peça, que precisou ser encomendada e não chegou antes do 1º turno.

Lucia Maria de Oliveira cogitou encarar as escadas da Faetec, em Quintino, Rio, para votar — Foto: Arquivo pessoal

Ao longo da campanha, a atração dos idosos era considerada uma das estratégias do presidente, já que liderava as pesquisas no segmento. O petista, que chegou a dizer um “levanta a bunda e vai votar” ao longo da corrida presidencial, agradeceu ao esforço das pessoas idosas em seu discurso da vitória, anteontem. Os 70+ representam mais de 10% do eleitorado.

— Conseguimos convencê-las que o voto era importante — reconheceu Lula.

Neste 2º turno, 30,5 milhões de brasileiros deixaram de ir votar, o que representa uma taxa de abstenção de 19,2%, menor patamar em 20 anos. O índice mostra ainda uma queda na abstenção entre os turnos, já que, em 4 de outubro, a abstenção havia sido de 21%.

— Foto: Editoria de Arte

CEO do Instituto Travessia Pesquisas, Renato Dorgan afirma que encontrou idosos querendo votar em grupos qualitativos, mas a postura de Flávio Bolsonaro, entendida como arrogante, no debate da Band, “assustou eleitores” do segmento, assim como a fala dos “nove dedos” do candidato, numa referência ao adversário. O cientista político cita ainda a desconstrução feita pela campanha petista sobre a declaração de Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha bolsonarista, sobre mudanças na aposentadoria como um dos fatores.

— A queda de abstenção com certeza tem parcela de idosos — avalia Dorgan.

Em Engenheiro Paulo de Frontin, no interior do Rio, Maria França Cosme, de 93 anos, vestiu sua camisa vermelha para ir votar nos dois turnos. Acompanhada por um dos filhos, a aposentada — que trabalhou por 30 anos numa fábrica de guarda-chuvas da cidade — conta que sua motivação foi a sensação de que seu voto iria “valer muito”, já que esperava uma diferença pequena entre Lula e Flávio.

— Meu voto não é mais por mim, é pela minha família. Eles vão precisar — conta Maria, mãe de dois, avó de quatro netos e bisavó de três. — Eu mesma nem preciso mais votar.

Trajada de vermelho, Maria França Cosme foi votar no interior do Rio — Foto: Arquivo pessoal
Pelas redes sociais, a presença massiva de idosos nas urnas foi tratada como ato de heroísmo em algumas postagens. O jornalista João Carlos Martins, por exemplo, publicou um vídeo no TikTok mostrando a avó, a aposentada Zulmira Magalhães, de 88 anos, “indo votar e fazendo Lula ganhar a eleição” com o seu andador, conforme escreveu na web.
— Fiquei muito feliz. Estava na casa da minha filha e a farra foi muito boa. Pularam, gritaram, cantaram. E fiquei junto: tenho 88 anos, mas estou firme e forte — celebra a moradora de Iguaba Grande, na Região dos Lagos do Rio, que votou nos dois turnos. — Achava que, com o Flávio, não ia dar certo.
Zulmira Magalhães e seu andador rumo à urna em Iguaba Grande (RJ) — Foto: Reprodução / TikTok / jcmartinss
Já em Irecê, no Centro-Norte baiano, o mecânico aposentado Roque Torres Amorim, de 101 anos, chegou a vestir boné e broche do PT, partido ao qual é filiado, para ir às urnas. Seu vídeo publicado no Instagram indo votar passa de 1 milhão de visualizações. Apesar de não gostar de celular, por entender que isso é “coisa de fofoqueiro”, Mestre Roque — alcunha inspirada no modo que chama a todos — atualmente é um influencer digital, em conta administrada pela família.
— Tem “véio” que tem medo de sair de casa, de cair, e por isso não vota. Eu não tenho medo. Em qualquer eleição, voto. Sabia que nós íamos ganhar, porque o Lula já trabalhou muito e cativou o povo — opina Roque, que criou 14 filhos, responsáveis por levá-lo ao local de votação.
Filiado ao PT, Roque de Amorim foi votar, aos 101 anos — Foto: Reprodução / Instagram / mestreroque100
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